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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Fernando Pessoa, um tuga com certeza, em homenagem à geração à rasca




Fernando Pessoa nasceu
em13-6-1888 em Lisboa
e morreu na mesma cidade
em 30-11-1935. Tenho apertado
 ao peito hipotético mais humanidades
 que Cristo.


...o Esteves sem metafísica...
                                                                     
                                                                 I know not what tomorrou will bring ou Eu não sei o que o amanhã reserva, últimas palavras desta Pessoa antes de falecer em 1935.

                                                           Geração à rasca. A expressão geração à rasca significa uma geração em dificuldades, em apuros ou melhor dizendo uma geração sem nenhum futuro. Ver-se à rasca é o mesmo que achar-se em dificuldades. O verbo rascar tem como sinônimos lascar, arranhar, gritar, arrastar e outros significados.

Bandeira de Portugal. Falhei em tudo.
                                                          

                                                     Portugal, um balde despejado, vive a mãe das crises, uma crise maior em que o país afunda em uma dúvida, em uma dívida mirabolante em Euros, convive com desemprego em forma de pesadelo, acima de10% e, baixo, ou nenhum crescimento do produto interno bruto. Morro a baixo foi parar na pocilga, no chiqueiro, agora, faz parte dos Pigs ( Porcos em inglês e as primeiras letras, com exceção do último, de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, todos países em dificuldades econômicas). Em razão disso explodiu na data de 12 março de 2011 um movimento denominado Geràção À Rasca em que jovens, cheios de metafísica, principalmente, estudantes, protestaram contra os apuros do país. Estes gajos tomaram as ruas sem medo,  abrindo os peitos hipotéticos, sonhando mais que Napoleão fez e pararam o país. O Fogaréu atento ao mundo, em homenagem à esta geração, composta de verdadeiros escravos cardíacos das estrelas, transcreve aqui o poema Tabacaria de Fernando Pessoa, 1888-1935, um tuga com certeza da língua portuguesa, em homenagem à esta geração. O poema, um dos mais belos da nossa língua, é apenas um alento, uma singela mercê, à esta geração perplexa que teve a inteligência de se organizar virtualmente em redes sociais. Os poderosos tremeram, a imprensa chapa branca procurou defeitos, espiolhou baldas nos jovens, não reconhecem que Portugal é um balde despejado, sugado pela corrupção, assombrado por dívidas e juros carnívoros e, como desgraça pouca é bobagem, está engessado por um modelo econômico que tem a forma de uma caravela quinhentista. Estes jovens tugas, pesadelos do euro, como por um instinto divino, sentem que não são nada, que nunca serão nada e que não podem querer ser nada diante da configuração do tudo que aturde. Toma lá, caríssimos, Tabacaria, como biotônico Fontoura para o espírito:
Nãosounada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Tabacaria
Nãosounada.                                                                                              
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo das
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.                     
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,                                    
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Manifestação histórica em 12-3-2011.
Estou hoje vencido como se soubesse a
verdade
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.                         
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Prédio onde nasceu Fernando Pessoa,
em Lisboa, Bairro do Chiado.
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma sem
Porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente                        
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates coma mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Manifestação da Geração À Rasca
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
   Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,                            
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Bandeira de Portugal.
Como um cão tolerado pela gerência

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti,    e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,               Com o destino a conduzir a carroça de tudo...
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como
Tabuletas
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Caravela, modelo econômico português. Morrerá
depois o planeta girante em que tudo isto se deu
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

        Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.                             
Também como um cão tolerado pela gerência

                                                                                          Zé Perrengue, um cão tolerado pela gerência, solidário com à geração à rasca




                                                                                                                                                                                                                           

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Decifra-me ou devoro-te!


Esfinge, filha de Ortro e Équidna
                                                  


                                                       Na mitologia grega a imaginação flutua no consciente e no inconsciente, daí a abundância de narrativas envolvendo saborosos monstros. São criaturas atormentadas, outros injustiçados, estes tem como único erro o fato de terem nascidos. As narrativas sobre eles são verdadeiros mistérios, enigmas, a serem desvendados sob pena de se assim não fizermos, sermos devorados. O erro neste estudo mítico dos monstros é o olhar superficial, como se os gregos e suas religiões fossem simples pagões ou ateus desprezíveis sem maiores conteúdos. Neste artigo vamos tentar desvendar a Esfinge, monstro com uma verdadeira tragédia de vida, como monstro indecifrável e decifrável. Na soleira da porta, assinalamos que a  Esfinge, conhecida como A Cantora Cruel, tem uma ascendência complicada, é filha da Senhora Équidna e Ortro, até aí tudo bem, um pai e uma mãe, só que Ortro é filho de Équidna e de Tífon.




Ortro, filho de Équidna e pai da Esfinge


                                                       Incesto entre monstros. Assim, caríssimos, temos um incesto entre mãe e filho, entre Équidna e Ortro e a Esfinge como produto acabado, como o enigma, algo que não foi decifrado, algo que não foi interditado, um escandaloso incesto entre monstros. O incesto, a proibição entre mãe e filho, se revela em um ser monstruoso que tem o rosto e seios de mulher, mas corpo, patas e rabos de leão. A tudo isso foi adicionado as asas, as asas da imaginação. Esfinge ou Sphinks em grego se origina do verbo sphíngueia que significa entre outras coisas sufocar, apertar ou comprimir. O nosso monstro sufocante é irma das Serias, aquelas das vozes doces que em seus cantos atraíam os marujos para o mar momento em que eram devorados. Ulisses em latim ou Odisseu em grego, o herói da Odisséia, venceu elas quando se deixou amarrar no mastro da embarcação, sem colocar tampões nos ouvidos.


                                                       Não confunda este monstro com a Esfinge egípcia que sempre aparece nas nossas lembranças, muito comum em fotos e filmes.


                                                      Esta imaginação monstruosa representa a interdição do incesto, a base da civilização, pois faz uma ligação clara entre monstros e incestos? Se parentes consaguineos se unem, as consequências genéticas podem ser terríveis, com aleijões e portadores de doenças mentais daí o interesse social em que a descendência seja saudável e garanta o futuro genético da espécie humana.


Équidna, mãe de Ortro e da Esfinge
                                                       Os pais da Esfinge. Équidna, mãe da Esfinge, da cabeça até a cintura era uma bela mulher de olhos cintilantes e da cintura para baixo uma serpente. Este monstro é a mistura fantástica entre mulher e serpente que se une ao filho cão Ortro e dá origem a Esfinge, ao enigma, a interdição do incesto, aos pensamentos proibidos do inconsciente. O incesto é a libido insaciável, desregrada, a própria Équidna, ou porque não a própria Esfinge produto descartável do inconsciente, o enigma do incesto.  Hera, esposa de Zeus, a protetora dos casamentos legítimos, como uma espécie de punição, enviou a nossa Esfinge para a entrada da cidade de Tebas para que devorasse os passantes caso eles não desvendassem um enigma proposto por ela.

Tífon esposo de Équida e pai de Ortro

                                                        O enigma da Esfinge. A Esfinge vivia na entrada da cidade de Tebas na Grécia aterrorizando os passantes  quando impunha o seguinte enigma de forma cantada, por isso é conhecida como A Cruel Cantora:


                                                      O QUE É QUE É, QUE DE MANHÃ TEM QUATRO PERNAS, AO MEIO DIA DUAS E AOS ENTARDECER TRÊS.



                                                      Édipo. Caso, o arguido, o indagado não respondesse corretamente, sem maiores delongas, era devorado pela Cantora Cruel. Édipo, Edipodos em grego que significa o dos pés furados ou inchados em grego, filho de Laio e Jocasta ou Epicasta, fato desconhecido por ele, já que fora abandonado no Monte Citerão e criado pelos reis de Corinto Pólibo e Peribéia ou Mérope conforme Sófocles,  se dirigia todo atormentado para Tebas vindo do Templo de Delfos. 



                                                       Vejam só o precipício dos fatos, o oráculo de Delfos tinha respondido para Édipo que ele mataria o pai e se casaria com a mãe, assustado evita Corinto, onde vivia com os seus pais de criação, fato desconhecido por ele. Sem dúvida nenhuma, Édipo não é um monstro mas faz papel de um, envolvido pelos segredos do destino. 


                                                       A volta do nosso demônio ou Édipo encontra Laio. Desta vez, caríssimos, o nosso demônio, o que tudo observa em uma moita, aquele que ficou decepcionadíssimo com o insucesso do devoramento no Dilema do Crocodilo em letras góticas, estava bastante otimista com o desenrolar destes acontecimentos, com a novela dos Lambdácidas, origem familiar de Édipo. Apostava todas as suas fichas no desentendimento entre pai e filho e resolveu acompanhar o evento traçado pelos deuses gregos, apenas, para deleites.  Vamos ao ocorrido enquanto o diabo pisca um olho.Uma resposta logo apareceu para Édipo, no caminho para Tebas, encontra nada mais nada menos com o seu pai verdadeiro, com Laio, Rei de Tebas, o qual ia para Delfos consultar o oráculo dali  sobre como se livrar da Esfinge que dizimava a população de Tebas, justamente, de onde Édipo vinha. Os dois se desentendem na estrada, por bobagens, ou um não dando caminho para o outro. Édipo, enfurecido nas desavenças, mata Laio. Desta vez o demônio viu que a vitória estava garantida ou que o incesto estava garantido e em êxtase, saiu correndo pela estrada rindo da largura de uma enxada, dando pulinhos e pulões, a jogar pelos ares todas suas bolinhas de enxofre que trazia em seu embornal enfeitado por cruzinhas negras, deixando Édipo preso ao seu negro destino. Para que tudo desse certo inoculou na mente de Édipo uma palavra enigmática que ficou ali quentinha saltando de neurônio em neurônio dando uma força aos deuses gregos.

                                                          Édipo encontra a Esfinge. Empós o parricídio, Édipo mais na frente, na entrada de Tebas, precisamente no Monte Fíquion, depara com a devorante Esfinge. Essa pergunta foi feita pela Esfinge a Édipo que ao dizer que a resposta correta era o homem fez com que a Esfinge pulasse no despenhadeiro e morresse, que fosse devorada por si mesma. A população de Tebas em êxtase, agradecida, livre do incesto materializado, livre da Cruel Cantora, fica agradecida, nomeia Édipo rei, com o consequente desposamento de Jocasta, a sua mãe, costume e tradição na época ou a rainha era ligada ao trono e não ao marido. Édipo e Jocasta se unem e dão à luz a outros enigmas, aos filhos Etéocles, Ismênia, Antígona e Polinice. Aliás, Antígona de Sófocles é uma bela peça teatral, imperdível, texto que apresentarei em breve. Tudo isso é uma tragédia, a maior tragédia de todas, o filho que mata o pai, a mãe que casa com o filho. A tragédia é maior pela inocência de todos, o pai não sabia que era morto pelo filho, a mãe que o filho matara o pai, Édipo que não sabia que desposava a mãe.


                                                       Édipo e a Esfinge, a Esfinge e Édipo, dois monstros atormentados, em comum o incesto, a proibição mãe e filho. Tomem tento, prestem a atenção, Édipo não decifrou o enigma, aparentemente, decifrado, pois cometeu incesto com Jocasta. O homem, o homem civilizado decifrou o enigma,como regra geral, não comete incestos, narra estórias monstruosas desestimulando o proibido. Reconhecemos que Édipo não tinha como decifrar o incesto, o enigma, às vezes é impossível decifrá-lo, está além das forças do homem do homem comum.

                                                       Freud, Sófocles e The Doors. Desta tragédia Sigmund Freud extraiu O Complexo de Édípo ou a atração entre mãe e filho, consciente ou inconsciente; Sófocles, um dos maiores dramaturgos da Grécia antiga ao lado de Eurípedes e Ésquilo, -497 ou -496 a.C.-406 ou -405 a.C., escreveu um dos maiores clássicos da literastura mundial ou Édipo Rei, um livro apaixonante, que devemos ter sempre à disposição, em cima do criado no quarto além de Édipo em Colono e Antígona, também de Sófocles;  o conjunto The Doors fez uma música famosa chamada The end, o fim, o fim da picada, o incesto, em homenagem a esta tragédia edipiana.

                                                        O enigma continua. O homem é o maior dos enigmas, não há respostas satisfatórias. Na verdade o enigma dos enigmas a ser desvendado é o homem, puro barro enigmático, o homem tentando desvendar a si mesmo, tentando conhecer a si mesmo, caso não seja bem sucedido, será devorado por um monstro, por uma Cantora Cruel ou por si mesmo. O enigma, A Esfinge são problemas, obstáculos, a serem superados pelo homem que se pretende ser civilizado. O incesto proibido, o caos, a falta de regras, o homem sem limites é apenas parte do enigma desvendado. Tudo levando a destruição, ao devoramento, no apocalipse das contas, Jocasta suicida-se, Édipo rasga os olhos com um grampo, com os olhos malferidos vaga pela Grécia, em busca de respostas, a sua filha Antígona conduz-o pelo braço. O maior dos enigmas, ou seja, o próprio homem, o que pensa depois, o vaso de tampa larga portador de todos os males, continua sob as nuvens pálidas do grande mistério. Na solução dos enigmas, não se esqueçam, sempre poderemos contar com Édipo, com a Cantora Cruel, Équidna, Tífon, Ortro, Laio e Jocasta, todos seres atormentados, monstros do inconsciente e do consciente, monstros necessários. O enigma foi lançado, não há volta, não há recusa, nem devolução no balcão da vida: decifra-me, ou devoro-te. Por favor leiam Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona, todas obras de Sófocles, livros básicos deste texto e comece a desvendar enigmas.
Édipo e a Esfinge, pintura de Gustave Moreau



                                                          

sábado, 27 de agosto de 2011

O Dilema do Crocodilo em letras góticas

O Dilema do Crocodilo em letras góticas



                                               Emergindo dos emaranhados do pantâno do inconsciente, o crocodilo, monstro verde-gosmento, que em um só golpe certeiro, quaerens quem devoret ou buscando a quem devorar, aprisiona em seus fiéis dentes a esperança da esperança, a criança atraída pelo cheiro fétido do charco, a qual sem forças, como uma posta de carne indefesa, se acomoda nas mandíbulas da morte, já sangrando em seus braços e pernas. A pobre mãe, a tudo assistindo, inconformada com o devoramento, com a cena dantesca, dá um grito de pavor que reboa,  que estoura pelos ares vibrando os tímpanos. No palco de Dante Alighieri, acompanhando toda a cena com sofreguidão, o demônio, com a cabeça enfeitada por um belo par de chifres cuspindo fogo, a antítese do bem, o qual em êxtase, a acreditar, no devoramento, jogava pelos ares pequenas bolinhas de enxofre, turvando todos os pensamentos conscientes e a enfeitar o ambiente com uma névoa de ovo podre.


                                                 Nessa cena lúgubre, infestada de fumaças vadias, o nosso monstro crocante, atingido pelos raios do grito, em seu cinismo sanguíneo, concorda em dar uma chance ao desespero maternal, a vítima, a todas elas, portadoras de uma chance romântica, de um direito gravado no livro do tempo. A decisão é, imediatamente, abençoada pelo demônio, o sempre cheio de intenções nefastas e nefandas, entre elas que o devoramento fosse em slow motion, tudo para maiores deleites sanguinários. Decisão que o Demônio toma, sem pensar, apenas com um aceno positivo de cabeça. E o Crocodilo, depois destas nuances, argui, a mãe aflita, na sua arrogância rastejante:

                                               - Advinha o que eu vou fazer com o seu filho?  -Se a resposta for correta, eu o soltarei! Tudo com irônicos e falsos ho!, ho!, ho!, imitando Papai Noel em filme de terror cult segurando um motosserra ensanguentado.


                                                Tal pergunta deixa a mãe petrificada, que titubeia em responder o enigma, o óbvio ululante. O terror aumenta em escala esponencial, o sangue santo escorre, as crianças são santas, a mãe fica mais estática ainda, às completas, tomada por Fobus, o deus grego do nosso medo herdado dos confins do paleolítico, no impasse demoníaco, o vento pára. Na fobia doentia da mãe em errar a síntese, a resposta da trese e da antítese, aparentemente simples, fica anestesiada, permanece ali travada na rede deste dilema, na rede do tempo de violência contra as crianças, cordeiros de deus, a esperança da esperança.

                                                
                                                 Neste exato momento o crocodilo crocante se vê em apuros racionais, tenta rever a sua proposta lançada, julga-a contraditória, entra em desespero, já conta com o terror da vítima em não responder a pergunta, a proposição ou enunciado.Vislumbra no horizonte as idéias duelarem, atirarem ao mesmo tempo, destruirem umas as outras, para o deleite do bem. Tenta raciocinar, tem dificuldades reptílicas, sente vontade de se encharcar no pantâno para um leve refresco; sente dor de barriga, afrouxa as mandibulas, a criança respira melhor, permanece quieta como instinto de defesa diante de forças superiores e demoníacas. Como um cão tolerado pela gerência, o diabo abre a boca, aperta o rabo. O monstro pensa melhor e se vê em uma emboscada das premissas que colocará em sua reputação a alcunha de tolo, se a mãe disser que ele o  crocodilo vai devorá-la, será obrigado a devolvê-la, a resposta está corretísssima, mas se ele crocodilo deixar a criança em paz, estará negando a sua intenção, que passará a ser falsa. E aí se criou o dilema do crocodilo e a cena ficou congelada na fração do tempo, na intuição do instante; caríssimos, todos os personagens da cena gótica passam bem, a fotografia é uma montagem, o  crocante crocodilo se acha devorado pelas idéias contraditórias, se julga um injustiçado, como nós todos sentimos injustiçados neste mundo. Não era correta na filosofia do crocodilismo dar ganho de causa à civilização, ao homem, o instinto é superior ao homem, só que o instinto estava perdendo a guerra e a racionalidade vencendo.  O que deveria ser superior ou o instinto devorador, estava sendo injustiçado por uma amaldiçoada racionalidade. Porem acreditava piamente que nada é mais firme, sólido, real, material, forte do que o intinto doado pela natureza, aliás qualquer crocodilo merecia carnes tenras de uma criancinha indefesa. A mãe petrificada, a criança em stand by e o demônio, às deveras, decepcionadíssimo, e, assim, permanecem, sem nenhuma resposta no e do tempo. Não há resposta, não há chifres, tudo não passa de um sofisma, de um jogo encantado de palavras. Sem embargo disso tudo, o que importa é que os dilemas continuam aterrorizando as nossas mentes, emergindo dos pantânos mefíticos, permanece a insondável escolha, o julgamento do homem julgando a si mesmo, destruindo a si mesmo, permanece o crocante crocodilo marinando em nossas cabeças.


                                                  Este dilema era do conhecimento dos estóicos, apreciado na idade média e hoje meio esquecido. Dilema, significa em grego, duas premissas. Premissa significa proposição da qual se infere outra proposição. Proposição significa enunciado ou declaração. Ou uma resposta para o  problema, só que a resposta torna falsa a proposição.


Frank R. Stockton, 1834-1902
                                                  Jogando uma bolinha de enxofre. Pensem no dilema do crocodilo, no dilema do homem, viver, morrer, ganhar, perder, ser, não ser, etc. Como sempre, gosto de colocar um gigante ao lado de outro, ao lado do nosso crocodilo coloco o tigre, o tigre de Stockton, há um conto sensacional, sobre os nossos dilemas, um dos melhores escrito nos Estados Unidos e no mundo, chamado de A dama, ou o tigre? de Frank R. Stockton, 1834-1902. No livro Contos Norte Americanos, Os Clássicos, coordenado por Vinicius de Moraes e apresentado por Orígenes Lessa, você o encontrará ao lado do melhor conto americano no nosso entendimento: Acender um fogo, de Jack Landon, 1876-1919, a trocarmos o crocodilo pelo cão. Para entender o cerne do conto de Frank R. Stockton, se se coloque sendo obrigado a abrir uma porta, uma escolha fatal entre duas, em uma tu podes deparar com um tigre faminto, na outra, com uma bela dama que te desposarás, tudo presenciado por uma espécie de demônio humano que se deleita com o delírio da escolha. Dilema é dúvida, a dúvida da escolha, a tragédia da escolha. Daí a grandiosidade do conto A dama, ou o tigre? é o dilema colocado no centro do homem. As respostas, ora, ora e ora, são, em sua maioria, insuficientes, algumas estão no maravilhoso livro A Escolha de Sofia. Por favor devorem este livro.
A Dama, ou o Tigre?

                                                      
      "A treze de janeiro, o capitão Nemo,
tendo chegado ao mar de Timor, avistara a ilha do mesmo nome.
A sua superfície é de mil e seiscentos e vinte e cinco léguas quadradas
sendo governada por rajás. Estes príncipes crêem-se filhos de crocodilo,
isto é, descendentes da mais alta origem a que possa aspirar um ser humano.
Por isso, os seus antepassados cobertos de escamas pululam nos rios da ilha
e são objetos de especial veneração. São protegidos, mimados, adulados,
alimentados, moças encantadoras são oferecidas, para que eles devorem e
ai dos estrangeiros que se atrevam a erguer a mão contra os sáurios sagrados.
O Náutilo, porém, não foi obrigado a enfrentar estes horripilantes animais."
(Excerto de Vinte Mil Léguas Submarinas de Júlio Verne, 1828-1905)  

                                                     Zé Perrengue, um abraço.


                                          

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu corpo dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas, Machado de Assis, 1839-1908 ou Memórias Póstumas de Brás Cubas

          Machado de Assis 1839-1908: "Qualquer um teria organizado este mundo melhor do que saiu. A morte, por exemplo, bem poderia ser tão-somente a aposentadoria da vida, com prazo certo..."
                           Machado de Assis é uma espécie de milagre... (Harold Bloom, reconhecido crítico literário de Nova York-EUA)                                          


                        A pena da galhofa e a tinta da melancolia. As amargas palavras do título deste texto fazem parte da dedicatória do sensacional livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, do notável escritor brasileiro Machado de Assis, 1839-1908 que alguns dizem pertencer a Escola do Realismo, etiqueta discutível, contudo, há uma unanimidade, é uma obra prima. Por curiosidade histórica e para situarmos melhor na literatura brasileira, lembro que Machado e Casimiro de Abreu nasceram no mesmo ano de 1839, só que Casimiro morreu com 21 anos, de tuberculose, em 1860. Neste livro um defunto, no caso Brás Cubas, se recusa a ir para o túmulo antes de narrar as suas memórias com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, na primeira pessoa o qual faz esta amarga dedicatória, colocando, logo, na segunda página "Ao leitor.", dando um toque de leve ironia. O nosso mestre nasceu no Rio de Janeiro, no Morro do Livramento, onde passou a infância vendendo balas, como engraxate, coroinha até que aos 16 anos arrumou emprego como aprendiz de tipógrafo. Machado tinha tudo para não dar certo, é uma pessoa ímpar em que o talento revelado supera a sua extrema pobreza, a epilepsia, que a respeito dizia "sentir umas coisas estranhas" e a gagueira, ademais, era mulato em um país que sempre pretendeu ter ares de europeus. Segundo alguns estudiosos parte do livro foi escrito em Nova Friburgo, ou melhor, parte dele foi ditado a sua mulher Carolina, nesta época Machado estava com uma inflamação cronica nos olhos e temia ficar cego. Não podemos esquecer que o nosso mestre teve uma grande ajuda de Maneco Almeida, Diretor da Imprensa, já famoso quando Machado foi trabalhar como aprendiz de tipógrafo, esclareço que Maneco é Manuel Antônio de Almeida, autor, simplesmente, de Memórias de um Sargento de Milícias, uma das melhores, no meu entendimento, obras da literaturas brasileira, livro que acho indispensável e que recomendo, os vestibulandos que o digam. Este livro só teve uma edição, ficou esquecido por quase cem anos quando foi redescoberto por Mário de Andrade, na época, no Rio afrancesado e formal, o riso provocado por um herói pândego e pilantra não era levado a sério.


                               O nosso herói quase foi demitido e a grande ajuda. É fato histórico que o superior hierárquico ao comentar com Maneco Almeida que o jovem Machado recém contratado era pego matando trabalho em um canto lendo um livro queria a sua demissão. Maneco, em sua inteligência literária, viu em uma pessoa que gostava de ler, coisa raríssima ontem e hoje algum talento e fez foi promover o nosso herói. Aqui vai outra lembrança de Maneco, morreu em um naufrágio do navio Hermes, na costa do Rio de Janeiro em 186l, aos 30 anos de idade.   

                               Brás Cubas. O livro é uma crítica sutil à sociedade abastada do Rio de Janeiro onde milhares de Brás Cubas, criados e mimados no luxo, com requintes franceses, se torna bacharel em Coimbra e que em seus empreendimentos criam produtos hilariantes como O Emplasto Brás Cubas. Pessoas que se regalam com prostitutas como Marcela, na juventude, à custo de alguns contos de réis. O personagem no final, ainda, diz que saiu no lucro, apesar da vida estéril.
                          

                               Livro histórico. O defunto ou Brás Cubas tinha sido um garoto  rico, mimado, mocinho displicente, um adulto pernóstico, privado de compaixão e de generosidade, além de condescendente consigo próprio. Este livro não é uma obra qualquer, faz parte da história da literatura brasileira. Foi editado em 1881 e causou na época muita polêmica. Ruptura com a narrativa linear. É histórico na literatura brasileira por não ser uma obra linear, ou seja, começa de trás pra frente, daí a primeira pincelada de genialidade. Não é só isso, Assis era culto e usava conhecimentos e outras obras em seus textos, a isso chamamos em literatura de intertextualização. Só os grandes sabem intertextualizar, só Machado sabe ser irónico, debochar de tudo e de todos com leves gotas de humor negro, tudo na intertextualização. É histórica também em razão da obra machadiana ser dividida em duas fases: antes e depois de Memórias Póstumas de Brás Cubas que inaugurou a fase realmente maior de suas obras. Alguns pesquisadores encontram semelhanças entre esta obra e a do francês Laurence Stern, autor de Tristan Shandy, um gigante da literatura francesa.

                              Originalidade. Machado saiu do usual na nossa literatura e com pinceladas de ironia, com o fino do humor negro e com algumas nuances de filosofia, em uma subversão radical, criou um dos melhores livros brasileiro. Um dos maiores críticos da época ou Sílvio Romero fez comentários acerbos sobre a obra: "Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer dos órgãos da palavra. Ele gagueja no estilo, na palavra escrita como fazem outros na palavra falada." Machado era gago e isto pegou mal para Romero, pontos para Machado que conseguiu a polémica em que Sílvio enfiou os pés pelas mãos. Mais tarde Sílvio Romero, Machado de Assis e outros fundariam, a academia Brasileira de Letras em 1896, instituição que Machado foi o primeiro presidente ocupando a cadeira n° 23, a qual tem como patrono José Alencar, falecido em 1877, e amigo do nosso mestre.

                               Há na obras belas pérolas machadianas, sobre o amor de Brás com a prostituta Marcela, o narrador defunto sentenciou:

                                               "Um amor que durou onze meses e cinco contos de réis..."
                                                   

                                     O capítulo cinquenta e cinco é, surpreendente, achei sensacional, ao descrever com todo o pudor machadiano o auge do amor entre Marcela e Brás Cubas, o qual cito literalmente ou os pontos, as exclamações e as interrogações ou o velho diálogo entre Adão e Eva. Deverasmente, o auge do amor é cheio de interrogações, pontos e exclamações, ao depois, contudo, pode vir o silêncio tumular entre os casais, sem nenhuma exclamação, interrogação ou ponto, outrossim o nome do título O Velho Diálogo de Adão e Eva veio a calhar:

                                               Capítulo LV - O Velho Diálogo de Adão e Eva

                                                Brás Cubas . . . . . ?
                                                Virgília . . . . . .
                                                Brás Cubas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
                                                Virgília . . . . . . !
                                                Brás Cubas . . . . . . .
                                                Virgília . .  . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
                                                Brás Cubas . . . . . . . . . . . . . . . . . .
                                                Virgília . . . . . . .
                                                Brás Cubas . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . !. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !
                                                Virgília . . . . . . . . . . . . . . . . . ?
                                                Brás Cubas . . . . . . . !
                                                Virgília . . . . . . . !


                                O final do livro, famoso e antológico, também é irónico e mordaz, quando o morto, finalmente, querendo ir ter com o repouso eterno, confessa para o leitor em um tom de ironia e pessimismo no último capítulo denominado de Das Negativas, por sinal :

                              Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.


                                      Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria, é uma das melhores lembranças que machado nos legou. Esta frase é famosa, é o próprio Machado, casado com Dona Carolina, falecida quatro anos antes ou em 1904, conhecido como o Bruxo do Cosme Velho, assim como o seu personagem não teve nenhum filho, viúvo, sozinho, doente e pobre, Machado morreu às três horas e quarenta cinco minutos do dia, padecendo de um doloroso câncer na boca e suas últimas palavras ao nosso grande escritor José Veríssimo foram: -A vida é boa! Pelo menos algo de positivo ocorreu, a cidade do Rio de Janeiro no ano de 1908 parou para acompanhar o seu enterro. Rui Barbosa discursou no cemitério São João Batista e um ano depois, Olavo Bilac, também amigo e fundador da academia brasileira, na Rua Cosme Velho, n° 18, na janela do sobrado, onde o nosso escritor vivia na época do seu passamento, ocasião em que se inaugurava uma placa em sua homenagem.


                                    Esposo amoroso. Nesta época em que o amor parece esfarelar na descartabilidade eletrônica e virtual, é surpreendente ver o nosso mestre mostrar tanto carinho, tanto amor pela sua esposa, a portuguesa Carolina com quem viveu quase quarenta anos. Machado contava em morrer primeiro que ela, temia não dar conta de cuidar de si e a solidão. Como poeta Machado de Assis dedicou a ela o mais lindo dos poemas brasileiros ou A CAROLINA , também conhecido como "Ao pé do leito derradeiro".  Ao pé do leito derradeiro, expressão que tenho como perfeita ainda mais complementada pelas pobre querida e trago-te flores - restos arrancados da terra ( a redução das flores a restos arrancados é genial):



A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas desta longa vida.
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.


Pulsa-lhe o afeto verdadeiro
 Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.
                                                           
Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos


 


Carolina, falecida em 1904

 
E ora mortos nos deixa separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulada,

São pensamentos idos e vividos.

                             Também fez um desabafo contundente em relação as suas saudades de Carolina:

                            "Foi a melhor parte da minha vida e aqui estou só no mundo...Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor, primeiro, porque não acharia a ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades e eu não tenho nenhum. Os meus são os amigos, e verdadeiramente, são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico por ora, na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a meiga Carolina. Como estou  à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la. Ela me esperará."                   


                            O autor comenta o livro. Machado é o mínimo do necessário na literatura, não deixe de apreciar esta obra que faz parte de sua famosa trilogia juntamente com Dom Casmurro e Quincas Borba. Nada melhor que algumas parcas palavras do próprio autor falando das memórias:

                          "Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não foi difícil antever o que pode sair deste conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual, ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião." 
                                     
                                "Há na alma desse livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo  e áspero, que está longe de vir dos seus modelos..."

                           Nos finalmentes e queijandos. Seria Memórias Póstumas o melhor livro da literatura brasileira, como alguns afirmam ou é Dom Casmurro, belas teses e antíteses que espreitam a literatura brasileira? Outrossim, há uma discussão elevada nas letras brasileiras sobre quais seriam os melhores contos machadianos. Caríssimos, toma lá o nosso singelo palpite: O Alienista, divertida brincadeira sobre a loucura, Anton Tchekov, um dos nossos escritores russos favoritos, escreveu um conto parecido, um dos melhores do mundo ou Enfermaria Número 6, esclareço que os dois não se conheciam pelas obras: Teoria do Medalhão, se os jovens prestassem mais atenção nestes conselhos, já seriam velhos experientes; Ideias de Canário, sobre os homens o canário filósofo do conto teceu os seguintes comentários que gosto tanto e fica marinhando no nosso cerébro: "Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se lhe devesse pagar os serviços, não seria com pouco, mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo.", vislumbrei a intenção do autor, através do canário, em dizer que as verdades são relativas, algo às vezes difícil de entender; um  conto sensacional que coloca as ideias de canário em confronto com as do homem que aprisiona um pássaro; não esqueçam do conto O Enfermeiro em que este mata o paciente e a grande ironia do destino, o punctum dolens do conto, a vítima, secretamente, em testamento, havia deixado todos os seus bens àquele;para uns e verdadeiros para outros; A Cartomante; Pai Contra MãeNoite de Almirante, onde o nosso mestre coloca o marujo Deolindo Venta-Grande em uma situação constrangedora, é o conto da decepção onde os juramentos são apenas frivolidades para uns e verdades para outros; O Espelho, um estudo sobre a personalidade. De todos eles acho perfeito e filosófico Ideias de Canário, não canso de dizer  que ele soube, como um mestre, relativizar a verdade, colocando a verdade na boca do homem e depois no bico do pássaro. É um conto esquecido pois não vejo este escolhido entre os melhores, nas relações que encontro, ao contrário de Noite de Almirante, exemplificativamente, que sempre aparece, e outros. Como gostamos de por as idéias para dialogarem, ao lado do nosso milagre, colocamos outro gigante, Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, apreciado por ele, algo raro em sua época, mostrando que ele sempre esteve e está na frente da maioria dos homens. Só que este tem um pensamento, na maioria das  vezes bem diferente do mestre, sobre o casamento tão aprecidado por este, o alemão encerrou matematicamente: Casar-se significa duplicar as suas obrigações e perder metade dos seus direitos; sobre a imortalidade sentenciou: "Desejar a imortalidade é desejar a perpetuação de um erro."; sobre a amizade vituperou: Quem é amigo de todo mundo, não é amigo de ninguém.




                                                   
Rio de Janeiro em 1839, ano em que Machado de Assis nasceu
Arthur Schopenhauser, 1788-1860, filósofo alemão